segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Contranarciso

em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas

o outro
que há em mim
é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós

Leminski, Paulo.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Indumentária capilar


Desenho, canetinha hidrocor sobre papel, outubro 2009.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Por enquanto

Um blog é um comprometimento. Página pessoal in process. Meus cabelos são meu work in progress, minha vida de santa falsa, minha lenda pessoal. Os fios que estão presos na minha cabeça crescem em comprimento, em desenho, em foto, em movimento, em editais, prêmios, apresentações, projetos, liminaridades e em silêncio.
E o lugar do silêncio no blog? Seria possivel visitar uma página por quase um mês e nada ver de novo? Seria possível manter-se em rede com um blog para revisitar o seu conteúdo? Tranformar o ato de busca de "novas", por busca em flash back, saudosismo, memória, e coisas assim?
Tanta informação que nos deslocamos sempre para frente. Eu vejo uma peça cênica mais de uma vez, algumas quatro ou cinco vezes. Elas têm camadas.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Aquilo que o público vaia,
cultive-o,
é você
Jon Cage

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Era como Fred Astaire?

Aqui segue uma escrita fruto da demanda de um emprego que tenho atualmente nomeado por dança vocacional. Semanalmente me encontro com uma equipe de colegas e a partir das discussões e assuntos de interesse realizamos protocolos, espécie de texto comprovador da existência de conteúdo e discussão, que acredito ser arquivado para um fim. Este tem como principal foco apresentar meu ponto de vista sobre uma resenha escrita pela Bailarina e Coreógrafa Débora Colker acerca da morte de Michael Jackson. (ilustrada, Especial E4, sábado 27 de junho de 2009)

Protocolo reunião de equipe, terça feira 30 de junho de2009.
Minha escrita é imprecisa e não tem como objetivo traduzir, transpor, relatar o que conversamos durante nosso encontro. Minha escrita é uma elaboração textual que nada mais pode se comprometer do que com aquilo que pertence à minha bagagem. O que me autoriza de algum modo escrever um texto que tem como intenção “abarcar uma coletividade” é o fato de ter convivido durante a semana passada, na terça feira, dia 30, por três horas com vocês. Conversamos, lemos, vimos, ouvimos e escutamos. De certo modo há a possibilidade de conectarmos pensamentos, mas isso não é regra.
Michael Jackson, 50 anos morreu. Débora Colker 48 anos – viva – escreve sobre o morto. Ambos dançarinos, ela clássica e atlética, ele, do sapateado, do street dance, da fala durante a dança, e, para os mais atentos, dos mudras indianos.
Débora identificava-se com Michael, segundo ela, artista fundamental para suas danças sociais e cênicas. Michael era lazer, prazer social, inventividade, disciplina, rigor estético. Débora vê em Michael um corpo próprio para dança – segmentos longilíneos, leveza, precisão –, ela agradece a existência do astro pop.
Michael um trabalhador desde a infância decide a certa altura de sua carreira mudar. Mudanças sempre ocorrem, as dele foram polêmicas, mudou a cor da pele, o nariz, a boca e com o tempo não era mais possível reconhecer seu corpo étnico. Ele viveu em uma época em que é possível brincar de Frankenstein, com a ajuda da ciência, e claro, dinheiro. Seu corpo de étnico ampliou-se para híbrido, artificial, simbólico, europeu, plástico, obsoleto, psicológico, estranho, julgado, polêmico. Michael teve em seu corpo corpos que inscrevemos na coluna vertebral do corpo vivo deste projeto que trabalhamos.
O corpo era negro, branco longilíneo e tinha danças que presentificavam Fred Astaire, Bogaloo Sam, Nicholas Broders, James Brown e até a dança contemporânea que eu danço aqui em São Paulo. O astro pop é um inventor de corpos, o astro pop poderia ser um artista orientador do vocacional dança. O astro pop foi branco e negro; era negro e virou branco; tinha feições masculinas e agora andrógenas; amor e ódio; lembranças dos bons tempos; I’ll be there...Thriller; compaixão por sua trajetória de vida; o corpo fala...; anunciações que estranham; homem magro; pele e osso; ultimamente se alimentava de cápsulas; morava sozinho num castelo de brinquedos; fez alguns filhos inseminados;
Não teria este jovem senhor uma singular experiência de vida à qual deveríamos prestar atenção?

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Sem título, técnica: fotografia digital, fotografia: Marina Takami, 2007

quinta-feira, 2 de julho de 2009

em volta da face

Sem título, técnica: lápis sobre papel, mayo 2009

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Dança em texto

Experiência cabeluda: uma narrativa da Cabelódroma e suas madeixas em território estrangeiro.

Experimentar o experimental ( Hélio Oiticica 1939-1980)

Como continuidade do trabalho Cabelódromo, estou buscando espaços para compartilhar o momento atual da pesquisa, ou seja, os cabelos em movimento corporal. Simultâneo à escrita do projeto para o programa Rumos Itaú Cultural na carteira pesquisa em dança contemporânea, me preparei para apresentar uma dança-performance dos cabelos que nomeei por Cabelódromo – 04. O experimento aconteceu no dia 20 de junho no evento ABCDança, organizado pela Cia de Danças de Diadema.
Como conceito o evento propõe uma itinerância, pelas sete cidades da região do ABC paulista, de espetáculos, bate-papos, fóruns e oficinas práticas dentro de um contexto artístico contemporâneo que valorize o interesse pela diversidade de manifestações com a linguagem da dança.
Na mesma noite em que me apresentei dois outros trabalhos foram dançados. O primeiro, um trecho de uma coreografia de um dos balés de repertório da Cia de Danças de Diadema nomeado por Baque, e o outro, do grupo Chemical Funk, uma espécie de dança didática do estilo loking.
Com a certeza de que as duas danças pertenceriam a parâmetros bastante regulares, no contexto da dança cênica atual, questionei-me qual seria o espaço para um trabalho que não favoreceria uma relação contemplativa convencional com o público, no caso, o Cabelódromo – 04. Este questionamento é o conteúdo deste texto.
Proto-performance [1]

Como preparação para a apresentação deliberei que teria como parâmetro para a criação desta dança dos cabelos elementos formais presentes na sintaxe da linguagem da dança.
Assim, manipulando o espaço, o tempo e apropriando-me de composições de vocabulários de movimentos defini um material corporal para apresentar no evento. Uma estrutura com espaços para o improviso, entretanto, respeitando um começo, meio e fim.
A tentativa de dialogar meu trabalho com o que comumente identifico como procedimentos para se dançar trouxe ao Cabelódromo a possibilidade de uma construção cênica, no entanto, sem efetivamente identificar-se com um tradicional contemporâneo[2]. Isto posto, saí de meu ateliê em busca da compreensão de qual seria o espaço para este novo experimento
.
Aqui começa: diante da cultura oficial

Pouco tempo antes do início do evento, uma de suas organizadoras propôs que eu dançasse no meio do público como uma intervenção. A idéia, segundo entendi, seria não comprometer minha apresentação e facilitar o entendimento do público, que, segundo a mesma, é uma audiência carente de ações culturais e poderia não compreender os propósitos da minha criação.
Restou a mim a decisão do que fazer. O tempo era curto, tive menos de uma hora para dar uma resposta do que faria. Não tinha muita clareza das circunstâncias para tomar uma decisão como essa por isso defini que me apropriaria dos dois espaços, o convencional – palco instalado no meio da praça onde o evento aconteceu – e seus arredores, onde o público ficava.
As danças aconteceram. Na ordem, primeiro o balé de repertório, um duo de mulheres com movimentação bastante codificada, que explorava dinâmicas muito rápidas de deslocamento entre níveis no espaço e organização dos segmentos corporais em situações que anunciavam uma narrativa duelística entre elas. Depois, o cabelódromo – 04 uma ação não narrativa, e, por último, o street dance gênero loking, uma dança de cinqüenta minutos de consumo intenso de energia corporal em prol de contar e demonstrar a origem deste tipo de dança, a própria história do grupo com a mesma, e a sua reconhecida posição em festivais de dança e, também, no cenário da dança cênica vinculada a esta modalidade no Brasil.
O Cabelódromo – 04, o recheio deste sanduíche, foi estranho. A certificação disso aconteceu primeiramente por meio da intervenção do público durante a apresentação, depois, com as lacunares considerações da classe artística presente, e, por último, por uma sensação – num plano subjetivo é claro –, de que havia certo distanciamento de todos com minha presença após a apresentação do Cabelódromo.
As performatividades na praça

À medida que desenvolvia minha dança-performance na praça – palco e chão – um cenário de liminaridades entre arte e vida apresentou-se naquele lugar. A platéia, que no primeiro e último trabalho envolveu-se silenciosamente com as apresentações – salvo os momentos em que aclamava o desempenho virtuosístico dos dançarinos do loking –, durante o Cabelódromo – 04 assumiu nova postura: corpos em vozes diversas/divergentes compuseram com minha dança.
Duas narrativas improvisadas aconteceram e dialogaram intensamente, cada uma, produto de uma experiência com a arte. Uma pré-experimentada e definida para acontecer como ação cênica, e, a outra, preparada a partir de definições comportamentais e culturais de um ambiente, de um imaginário, de um cotidiano sobre ver arte.
Os modos de composição dessa relação apoiaram-se na colagem e justaposição por comparação, semelhança e contraste. Desse modo, eu expunha meu vocabulário de movimento com os cabelos e o público a sua narrativa dos fatos “olhados”. Cabelos em volta da face; movimentos frenéticos e repetitivos com os fios; um corpo que se lança no espaço para mover caoticamente as madeixas; modelagem do cabelo em slow motion; tranças e “burka” foram algumas das imagens apresentadas por mim. Inquietações; conclusões sobre as imagens do cabelo; risos e interjeições foram reações propostas pelo público.
Venho alimentando minha pesquisa em dança com estudos referentes à linguagem da performance, isso, por uma vontade de experimentar um devir do que já reconheço como dança, ou ainda, para citar Renato Cohen[3] “Nesse sentido, existindo como um topos de pesquisa de linguagem, a performance funciona como vanguarda nutridora da artes estabelecidas”.
Originalmente meu percurso com a linguagem da performance cumpria a função de instigar uma violação das “regras aprendidas por mim para dançar”, entretanto, pós dança dos cabelos em Rio Grande da Serra, trata-se fervorosamente de uma experiência de violação dos limites relacionais estabelecidos entre artista e público, arte e vida, e “nativos” e “estrangeiros”.
De um lado eu, personificada como “conteúdo artístico oficial”, e, do outro, um coro que se sentiu instigado a questionar minha autoridade para tal. Neste embate Cabelódromo – 04 se tornou uma obra coletiva, pois, em tempo real, a dança foi fruto da participação da platéia, suas aprovações e desaprovações influenciaram minhas escolhas durante a apresentação.

E o recheio das bordas?

Tal envolvimento entre as partes, não previsto, certamente é o que me mobiliza a escrever este texto. Creio que chego ao ponto mais esperado por mim, o de compartilhar minhas considerações sobre este acontecimento.
É certo que a arte, desde a década de 60 do século passado, assumiu declaradamente seu empenho em provocar estranhamentos[4] de naturezas diversas entre “artista, obra e público”. A idéia de objeto de arte propagou-se neste contexto como um novo fazer em arte: não se faz mais arte, enquanto uma existência acabada, e sim, como elemento (i)material que diante de uma audiência toma o sentido de arte.
O que aconteceteu com Cabelódromo-04 já está previsto nos livros de história da arte há pelo menos 40 anos, entretanto, aquele momento foi o de inaugurar em minha trajetória o experimental na arte, e assim, o de decifrar o que tais estranhamentos podem revelar acerca de um contexto específico, no qual o critério de formação da cultura local aponta para uma valorização de uma dinâmica hierarquizada entre centro – periferia.
Ainda que em acordo com este modo de fazer arte, dito contemporâneo, durante os quinze minutos de minha apresentação tive dúvidas da pertinência do meu trabalho como arte. Vivenciar as liminaridades entre aprovação e desaprovação, naquele contexto revela algumas percepções particulares, entretanto, creio que interessantes de se compartilhar.
Curiosamente desconsiderei que Cabelódromo – 04 fosse estranho. A perspectiva disso talvez se justifique por minha aproximação com a região do ABC paulista, onde nasci e também iniciei minha profissionalização em dança. Uma afetiva, inconsciente e equivocada conclusão. Percebo que ao sair do “meu território” elaborei para ele uma visão bastante bucólica, imprimindo nele um espaço aberto para a volta de “um seu” já diferente, entretanto ainda parte inerente. Este desejo não se traduzia na idéia do sujeito que volta com a verdade, com o progresso, no meu caso, com o que oficialmente devemos reconhecer por arte, trata-se mais do acolhimento do processo que o sujeito vive(u) em terra estrangeira. Mas o diferente disto aconteceu. O ABC parece apresentar uma tendência a oficializar suas experiências culturais como uma arte já instituída. As danças daquela noite, as chamadas interjetivas do público, as considerações da classe artística fomentadora do evento apontam para isso. Nas entrelinhas, leio que minha dança foi questionada quanto à sua validade para apresentar-se oficialmente como arte.
A dança do cabelo não pertence ao tradicional contemporâneo quanto às danças sociais como o street dance. Onde estaria então?

“Falo de cultura das bordas e não das margens, para não trazer a noção pejorativa ou mesmo reversora de marginal ou de alternativa. “Com bordas” quero enfatizar a exclusão do centro, aquilo que fica numa faixa de transição entre uns e outros, entre as culturas tradicionais reconhecidas como folclore e a daqueles que detêm maior atualização e prestígio, uma produção que se dirige, por exemplo, a públicos populares de vários tipos, inclusive àqueles das periferias urbanas.” (Jerusa Pires Ferreira in: Heterônimos e cultura das bordas: Rubem Lucchetti, revista USP Dez/jan/fev/1990)

Recentemente discutindo um pouco sobre a validade da estrutura cultural e geográfica centro-periferia, tomei contato com a discussão feita por Jerusa Pires Ferreira acerca desta problemática. O que sobrevive entre o “folclore” e a “arte oficial”, segundo ela, está na borda, no meu entender ambiente que existe como último espaço antes da passagem para o outro lugar. Desse modo a idéia de centro e periferia assim como se conhece pode ser revista, pois a imagem polarizadora que possui um “centro” e um “em volta”, a partir deste conceito de borda apresenta em cada parte, seja ela centro ou periferia, uma borda, um entorno não oficial, dentro do reconhecimento do que é centro e periferia.
No campo social, das artes e da educação, esta dualidade vem para nos conscientizar do acesso maior ou menor de um povo à cultura tida como “ideal” e “oficial”. Faz parte dela tanto os vestígios das culturas ancestrais e regionais, quanto aquela inspirada da tradição européia. Entretanto, escapam a esta dinâmica os fenômenos culturais cotidianos, originais por sua montagem subversiva e desautorizada dos bons costumes, do legado, da tradição. Sendo a arte, a cultura em geral, um estado de fazer e multiplicar os modos de vivência materiais e subjetivos de um povo, fazer cultura mais do que incorporar ou de modo simplista “reproduzir culturas”, é dar espaço para o que nas “bordas” da oficialidade surge e se manifesta como presentificação da vida.
Sem julgamentos maniqueístas, esta dança foi risco, choque de culturas, denúncia de processos de aculturação. Creio que estes elementos são pertinentes para a arte e a sociedade contemporânea. A dança do cabelo está na borda!

“De modo que é o processo criativo total que é ativado impedindo o fetichismo coagulador da obra feita. Para iniciar a corrida são necessários dois ou três pressupostos básicos: tomar uma boa talagada de inconformismo cultural-ético-político-social, evitar a arapuca armada do folclore e destravar a armadilha preparada pelo esteticismo.”
(Waly Salomão in: Hélio Oiticica Qual é o Parangolé e outros escritos, Rocco, 2003)

notas

[1] O termo assume dois sentidos no campo da performance. Um cunhado po Roselee Goldberg, que designa a produção em performance antes da década de 60, e o outro, por Richard Schechner, que trata do momento anterior à performance englobando seu processo de preparação - sentido apropriado neste texto.

[2] A nomeação trata do desenvolvimento de danças na contemporaneidade que valorizam a fixação de elementos estéticos em prol de um "estilo", ou ainda, "gênero contemporâneo"

[3] COHEN, Renato. Performance como linguagem, Sâo Paulo: Perspectiva, 2004.

[4] A ressalva se faz importante, porque, para além deste período mencionado podemos atribuir à arte esta qualidade, a de provocar estranhamentos.

domingo, 28 de junho de 2009

Siempre cabelódroma!

Diretamente do album de recordação do jardim I