Aqui segue uma escrita fruto da demanda de um emprego que tenho atualmente nomeado por dança vocacional. Semanalmente me encontro com uma equipe de colegas e a partir das discussões e assuntos de interesse realizamos protocolos, espécie de texto comprovador da existência de conteúdo e discussão, que acredito ser arquivado para um fim. Este tem como principal foco apresentar meu ponto de vista sobre uma resenha escrita pela Bailarina e Coreógrafa Débora Colker acerca da morte de Michael Jackson. (ilustrada, Especial E4, sábado 27 de junho de 2009)
Protocolo reunião de equipe, terça feira 30 de junho de2009.
Minha escrita é imprecisa e não tem como objetivo traduzir, transpor, relatar o que conversamos durante nosso encontro. Minha escrita é uma elaboração textual que nada mais pode se comprometer do que com aquilo que pertence à minha bagagem. O que me autoriza de algum modo escrever um texto que tem como intenção “abarcar uma coletividade” é o fato de ter convivido durante a semana passada, na terça feira, dia 30, por três horas com vocês. Conversamos, lemos, vimos, ouvimos e escutamos. De certo modo há a possibilidade de conectarmos pensamentos, mas isso não é regra.
Michael Jackson, 50 anos morreu. Débora Colker 48 anos – viva – escreve sobre o morto. Ambos dançarinos, ela clássica e atlética, ele, do sapateado, do street dance, da fala durante a dança, e, para os mais atentos, dos mudras indianos.
Débora identificava-se com Michael, segundo ela, artista fundamental para suas danças sociais e cênicas. Michael era lazer, prazer social, inventividade, disciplina, rigor estético. Débora vê em Michael um corpo próprio para dança – segmentos longilíneos, leveza, precisão –, ela agradece a existência do astro pop.
Michael um trabalhador desde a infância decide a certa altura de sua carreira mudar. Mudanças sempre ocorrem, as dele foram polêmicas, mudou a cor da pele, o nariz, a boca e com o tempo não era mais possível reconhecer seu corpo étnico. Ele viveu em uma época em que é possível brincar de Frankenstein, com a ajuda da ciência, e claro, dinheiro. Seu corpo de étnico ampliou-se para híbrido, artificial, simbólico, europeu, plástico, obsoleto, psicológico, estranho, julgado, polêmico. Michael teve em seu corpo corpos que inscrevemos na coluna vertebral do corpo vivo deste projeto que trabalhamos.
O corpo era negro, branco longilíneo e tinha danças que presentificavam Fred Astaire, Bogaloo Sam, Nicholas Broders, James Brown e até a dança contemporânea que eu danço aqui em São Paulo. O astro pop é um inventor de corpos, o astro pop poderia ser um artista orientador do vocacional dança. O astro pop foi branco e negro; era negro e virou branco; tinha feições masculinas e agora andrógenas; amor e ódio; lembranças dos bons tempos; I’ll be there...Thriller; compaixão por sua trajetória de vida; o corpo fala...; anunciações que estranham; homem magro; pele e osso; ultimamente se alimentava de cápsulas; morava sozinho num castelo de brinquedos; fez alguns filhos inseminados;
Não teria este jovem senhor uma singular experiência de vida à qual deveríamos prestar atenção?